Cantar a Pele de Lontra


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10/01/2005 08:44

BLOGUE-DOGUE DO CLAUDIO DANIEL


NOVO ENDEREÇO

Caros, a Pele de Lontra mudou de endereço. Agora, estou na UOL. Venham me visitar na página http://peledelontra.zip.net.

Como não consegui transportar todo o conteúdo da página antiga para a nova, manterei essa aqui, com o material que foi publicado até agora, enquanto o pessoal do IG não colocar a URL fora do ar... bem, é isso, saudaciones do

CD


enviada por Claudio Daniel



07/01/2005 08:43

EPIGRAMA 8

Espere tudo de cinco mulheres juntas.
Conversando.
As maiores putarias.
Obscenidades tremendas.
Elas emanciparam-se.
Tornaram-se fortes, corajosas e opressivas.
Queremos mostrar poder,
porém dez de nós conversando nem chegam perto de cinco delas.


EPIGRAMA 18

Quando nada, absolutamente nada, sai
Eu saio para dar uma volta.
Vou à floresta à procura de chapeuzinho, da vovó ou do lobo.
Na ânsia de ver pessoas
vou a bares requintados e a botecos mal-cheirosos.
Passo na biblioteca e ponho o nariz em Bandeira.
Depois de várias cervejas
e um colóquio interminável de asneiras.
O que mais desejas?
Ser uma ema?
Para sem pena enfiar a cabeça num buraco?

(Mais duas jóias de mestre Torquato, publicadas na revista Arraia Pajeúrbe...)

enviada por Claudio Daniel



05/01/2005 21:23

EPIGRAMA 24

Há em mim um misto
de loucura e lucidez
de liberdade e amarras
de solidão e paixão
de libra e leão.
Uma tormenta cai
sobre a noite longa
longa noite aquela
onde as janelas
permaneciam fechadas
e eu fora dormir cedo.
ESPERAR. ESPERAR.
Sonhar com Lúcifer...


(Poema de Torquato Neto, publicado no jornal literário Arraia Pajeurbe n.2, de Fortaleza-CE, junto com outros dezesseis textos inéditos do poeta. Edição imperdível.)

enviada por Claudio Daniel



03/01/2005 08:40

EM TEMPO

Quem entrou no mundo dos blogues é a Bárbara Lia, de Curitiba, que tem belos poemas. O endereço é www.ayshaguerreira.blogspot.com. A moça, que acabou de lançar o livro O Sorriso do Leonardo, pela Kafka Edições, é uma das boas presenças do n. 10 da revista Coyote.

enviada por Claudio Daniel



31/12/2004 10:05

RESUMO DE TUDO

Om mani peme hum. Acabou. Finalmente, esse ano acabou (aliás, para ser preciso, acabará nas próximas catorze horas, em contagem regressiva). O ano foi intenso. Guerra no Iraque, na Palestina, na África, no Haiti e em outras latitudes. Desastres naturais. Sacanagem capitalista internacional. E tudo aquilo que vocês já sabem. No campo da literatura, porém, rolaram coisas boas. Logo no começo do ano, surgiu a editora Lamparina, no Rio de Janeiro, publicando o Elogio da Punheta, do Sebastião Nunes, a antologia Pegadas Noturnas, do Glauco Mattoso, o livro de ensaios A memória das coisas e o de ficção O livro de Zenóbia, de Maria Esther Maciel, o excelente Nômada, do Rodrigo Garcia Lopes, entre outros títulos.


Mais para o fim do ano, o evento Encontros de Interrogação, promovido pelo Itaú Cultural, reúne cerca de 90 poetas e escritores para um ciclo de debates sobre a criação literária. Centenas de pessoas participaram do evento, mostrando a falácia de quem diz que não há interesse pela literatura. Quase ao mesmo tempo, Ademir Assunção lidera (sorry, Ademir) o movimento Literatura Urgente, que entregou propostas ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, e deve ter continuidade em 2005 (aguardem!). Para coroar o ano, a Casa das Rosas, que recebeu o nome “Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura” recebe os 35 mil volumes da biblioteca do titã concreto e já começa a desenvolver importantes ações culturais, sob a direção de Frederico Barbosa. Isso, sem falar da FLIP, do Telecom e coisas assim.


ABSURDO DO ANO: não concederem o primeiro prêmio do Telecom ao poeta Augusto de Campos.


Lançamentos de livros? Começando com os meus (claro): o de ficção Romanceiro de Dona Virgo, que saiu pela Lamparina, e Jardim de camaleões, a poesia neobarroca na América Latina, publicado pela Iluminuras. Fred lançou a antologia A consciência do zero, também pela Lamparina, Horácio Costa lançou uma importante antologia de sua obra poética, o Fracta, e Ronald Polito várias traduções de poetas catalães que ninguém conhecia no Brasil. Fabrício Marques publicou o Dez conversas, reunindo entrevistas que ele fez com diversos autores, e o André Dick lança Papéis de parede. O melhor livro do ano, porém, in my opinion, is Galáxias, de Haroldo de Campos, relançado pela editora 34. Leitura obrigatória, mais importante que a Bíblia, o Talmud e o Alcorão.


E tem ainda as traduções que Haroldo fez de Ungaretti (junto com Aurora Bernardini), que a Ateliê editou há pouco; o terceiro volume das Obras Completas do Mário Faustino; o Catatau de Leminski, enfim relançado, e o inédito O gozo fabuloso, de contos, que ficou décadas na gaveta; o que mais? Os amigos que me perdoem, mas é o que me lembro agora. Revistas? De papel, a Coyote continua arrasando, a Azougue do Sérgio Cohn também, e agora pintou na área a Oroboro, editada por Ricardo Corona e Eliana Borges. Na Web, Zunái continua resistindo, junto com suas primas-irmãs Errática e Mnemozine. Está de bom tamanho, não é? Em 2005 virá muita, mas muita coisa nova, aguardem (entre elas minha antologia poética pessoal, Figuras Metálicas, pela coleção Signos, da Perspectiva). Ufa, cansei de escrever! Xau, já fui! Até 2005,

Claudio Daniel

enviada por Claudio Daniel



30/12/2004 18:47

TIBET

Om tare tu tare ture soha

ABRAÇA a noiva
do silêncio,
verte o néctar
do crânio, flores
na pele jambo
de escuro céu;
mãe do azul, mãe
da lua nova,
você sorri, luz verde
em seus dedos;
toca em meu apego
ilimitado, caveira
de mim, e o desfaz
em cinza; irada,
bate o pé no chão,
seduz o meu desejo,
faz dele amor
a tudo o que vive.
Teu lótus se desfaz
em luz, mergulha
em meu lótus
e reluz.

(Poema de Claudio Daniel, do livro A Sombra do Leopardo.)

enviada por Claudio Daniel



29/12/2004 08:26

SEBASTIÃO NUNES FALA DO ROMANCEIRO DE DONA VIRGO

Leiam a resenha que o mamaluco genial Sebastião Nunes publicou na edição de 23 de dezembro do jornal O Tempo, de Belo Horizonte... depois dessa matéria e daquela do Nelson de Oliveira, no Jornal do Brasil (ver mais abaixo, nesta página), só falta agora sair no The New York Times... valeu, Tião!


AUTOR EXPLORA OS LIMITES DA LINGUAGEM

A literatura de ficção do século 20 pode ser dividida, grosso modo, em dois grandes grupos de escritores: os contadores de história e os pesquisadores de linguagem. Claro que está longe de mim tentar estabelecer blocos monolíticos de autores de uma ou outra tendência. Temos dezenas de bons e ótimos prosadores transitando com a maior desenvoltura de um lado para o outro, aos saltos e cambalhotas.

Talvez os maiores exemplos desses grupos hipotéticos sejam, de um lado, James Joyce e, do outro, Marcel Proust, Thomas Mann ou ainda Franz Kafka. Já nos exemplos fica clara a superioridade numérica dos contadores de história sobre os pesquisadores de linguagem.

Também no Brasil a tendência joyceana sempre esteve em minoria, mesmo porque num país de poucos leitores há o esforço natural para atrai-los através de narrativas lineares e de mais fácil assimilação.

Não foi, contudo, o que aconteceu na virada de século. Incrivelmente, há uma crescente efervescência de autores voltados para a construção (ou para a desconstrução) da linguagem – e o mais recente deles, e dos mais criativos, originais e instigantes, é Claudio Daniel, com seu “Romanceiro de Dona Virgo”.

Poeta com três ótimos livros publicados, Claudio partiu para uma prosa radical, em que – paradoxalmente – usa como referência e suporte alguns dos principais clássicos da língua, tanto na biografia como na obra. De fato, dos seis textos que compõem o livro, quatro se estruturam em torno de Camões, Gregório de Matos, Cláudio Manuel da Costa e Cruz e Souza. Um outro toma como mote o romance entre George Sand e Chopin, enquanto o último retorna à época dos trovadores, para entremear à intrincada narrativa poemas em português arcaico, quando a língua se consolidava.

Nesse nível de construção, em que a prosa ficcional é pretexto para a exploração ao máximo do potencial da língua e das estruturas narrativas, não se pode esquecer os que o antecederam entre nós, e cujos nomes só o valorizam, especialmente Guimarães Rosa, Haroldo de Campos e Paulo Leminski (via “Catatau”). É uma vertente riquíssima e da maior importância em nossa literatura.

Ao lado de textos que se propõem mais narrativos, como o que conta uma hipotética aventura de Camões em Macau, no capítulo do mesmo título, o leitor vai encontrar textos de invenção radicalíssima, como “Gavita, Gavita”, em que Daniel mergulha na própria linguagem da loucura, numa construção densa e estranha, “entrecortada de pausas, silêncios e claridades súbitas”, com escreveu no posfácio Maria Esther Maciel. E também de textos em que, como destacou Sérgio Sant’Anna na orelha, “um jovem guerrilheiro, vestido de mulher, se refugia num mosteiro beneditino e vê Deus, e Ele é azul”, numa história que, apropriando-se de trechos de Gregório de Matos e do Padre Antônio Vieira, ecoa os momentos mais violentos da ditadura militar brasileira, séculos depois.

O “Romanceiro de Dona Virgo” é um livro múltiplo e complexo. Desses que exigem tempo, argúcia e experiência na leitura da melhor literatura, e agora não apenas da ocidental, porque o romanceiro de Claudio Daniel nos remete a todos os tempos e a todos os povos, com sua multiplicidade de culturas e costumes, como se neste livro se reedificasse, mais uma vez, a Torre de Babel, em toda a sua extraordinária multiplicidade de linguagens.


ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Urgente, urgente! El malucón Douglas Diegues, autor de saborosos sonetos selvajes, estudioso de tribos e bugres da fronteira, já tem um blogue onde pode ser localizado, no ciberespaço. Anotem e visitem: www.portunholselvagem.weblogger.com.br.  



AUSTRÁLIA

Para Carlos Ávila

VIAGEM ao branco
da pedra. Ver
— pelo avesso
da pupila —
uma face
no sulco
da terra,
um deus também
é o vento.

Água,
serpente
e pétala,
cada estrela,
o sangue
do jaguar:
tudo são
vestígios
da encantação.

(Poema de Claudio Daniel, do livro A Sombra do Leopardo)

enviada por Claudio Daniel



28/12/2004 08:31

COYOTE 10 ESTÁ NA PRAÇA


O número 10 da revista literária Coyote já está na praça, com um dossiê dedicado a Horácio Costa. A publicação, editada pelos poetas Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes, traz ainda muitas boas surpresas, como traduções de Walt Whitman, Jorge Luis Borges e poemas inéditos de Bárbara Lia (anotem o nome dessa moça), Alberto Pucheu e fragmentos do roteiro do filme Lost Zweig, de Sylvio Back. Coyote vem se destacando no cenário editorial pela ousadia da programação visual e pelo critério de escolha de autores e textos, bem além da diluição do modernismo e das referências centradas na poesia francesa ou norte-americana, abrindo suas páginas para o melhor da poesia latino-americana (José Kozer, Victor Sosa, Reynaldo Jiménez, entre outros) e mesmo oriental (o coreano Yi Sáng, o chinês Po Chu I, o árabe Adonis). Confiram.

enviada por Claudio Daniel



27/12/2004 08:43

UMA CONVERSA COM HORÁCIO COSTA

Claudio Daniel: Em ensaio publicado recentemente na revista Coyote, Eduardo Milán comenta o descompasso entre linguagem e realidade. As palavras são insuficientes para a representação do mundo? Cabe ao poeta insistir na tentativa da mímese ou buscar a criação de novas realidades, quer dizer, realidades estéticas (e através delas influir na mudança do mundo atual)?


Horácio Costa: As palavras nunca cobriram a realidade, elas inventam outra, ou outras, que está, ou estão, em contato com a realidade dita tangível pelos nossos pobres e insuficientes sentidos. A correspondência entre realidade e linguagem nunca foi direta, nem simples. Derrida fala disso bem em La Mythologie Blanche, no famoso ensaio La Pharmacie de Platon. Thot pode matar ou curar; depende da dose e do acerto. Não há muitas regras, de fato, para estabelecer a distância entre a criação de linguagem e sua recepção, ou melhor dito: o seu cabimento, num determinado momento histórico. O que pensaram os contemporâneos de Dante sobre a Divina Commedia? Nunca se saberá. Dante era antipático aos gibelinos, foi expulso de Florença, tinha um imaginário pedófilo e seria um cripto-fascista, em termos da ideologia que circulava há cinqüenta anos — preferia o imperador germânico a seus fellow citizens. Mas escreveu, ou melhor: fez, no sentido de realizar, a maquete mais acabada de uma forma mentis, que hoje nós chamamos de medieval. Quantos de seus contemporâneos se reconheceram nela, à época da sua escritura? Nunca se saberá. Então vejamos: há, sim, hoje, uma grande aceleração na superfície do lago, uma turbulência que parece digna de um macroliquidificador de tudo, menos de si mesmo, mas eu quero crer que é só aparencial, embora nós a vivamos como Realidade, ou pelo contrário, essa turbulência é tão estrutural que só a podemos perceber como aparência, por que a nós humanos não é dado o entendimento completo (e por que seria?).


Michio Kaku, um matemático japonês, fala de dez dimensões detectáveis e que quiçá venham a ser mensuráveis (quando?). A turbulência da nossa realidade se somará às de todas as demais, potencializada? E se o "natural" da ordem for a desordem, no sentido da turbulência? Então, se for assim tudo sempre foi e será eminentemente turbulento. O melhor é não se assustar com isso, começar a encarar o caos como fator condicionante daquilo que pensávamos ser ordem, e condicionante para a criação de outras utopias futuras, e tratar de viver a nossa dimensão turbulenta como se fosse — e parece ser — o normal das coisas, ainda que tenhamos momentos de suspensão, alguns deles induzidos pela poesia, ou pela linguagem em função artística, que criam uma outra vertigem, a da arte, que podemos crer ou não que nos compensam desta sina cósmica. Também é importante que incorporemos de vez que só na aparência algumas obras de arte que nos parecem "monumentos", no sentido anterior da palavra, parecem-nos estáveis, uma vez que a crítica já faz tempo que se encarregou de dissecar essas brilhantes superfícies canônicas que eram as obras de arte até o século passado, e hoje a inteligência crítica ensina ao leitor, ao espectador, ao aluno médio que a instabilidade é talvez um dos condimentos mais importantes para a artisticidade da obra de arte, que só pode viver quando recebida por alguém preciso, individual, e daí instável, e não simplesmente fechada por uma interpretação, um valor, um sentido únicos, que almejam à estabilidade, à autoridade, à morte, em resumo.

(Trecho da entrevista que fiz com o poeta Horácio Costa, publicada no n. 10 da revista Coyote, que acaba de sair da gráfica.)

enviada por Claudio Daniel



24/12/2004 08:32

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Saiu ontem, dia 23 de dezembro, no jornal O Tempo, de Belo Horizonte, resenha de meia página do Romanceiro de Dona Virgo, escrita por ninguém menos que Sebastião Nunes. Claro que fiquei todo catita e pimpão. Assim que tiver o arquivo da matéria, divulgarei aqui no blog. Ah, sim, e tem uma excelente entrevista com o poeta Ademir Assunção, autor de livros como LSD Nô, Zona Branca e Adorável Criatura Frankenstein no site http://www.revistaetcetera.com.br/17/ademir_entrevista/index.html. E para quem está no Orkut, uma boa nova: já existe uma comunidade para divulgar as atividades da Casa das Rosas!


GRÉCIA

UM JOGO de centauros.
Inflama
o trigo da pele;
grita teu olho,
dos pés à cabeça;
teu olho é pele,
teu olho é sol
de sêmen, desfaz
o rosto na água,
acasala tuas éguas.
Depois, lacera-te,
lapida tua boca,
bebe tua urina.
Arde a terra,
arde a carne.
Então, cala bílis
e fleuma; despido
como um deus,
abraça a deusa
do silente mistério.

(Poema de Claudio Daniel, do livro A Sombra do Leopardo)

enviada por Claudio Daniel



23/12/2004 09:23


ENTREVISTA EM WEBLIVROS

O poeta e editor Reynaldo Damazio, autor do livro Nu entre nuvens, fez entrevista comigo no site literário Weblivros. Quem quiser ler a matéria, é só acessar a página, no endereço http://www.weblivros.com.br.



SÃO PAULO EM ARTE E VERSO

A Casa das Rosas está realizando uma exposição de desenhos da artista plástica Teresa Saraiva, retratando cenários tradicionais da cidade de São Paulo, como o Pátio do Colégio, o Mosteiro de São Bento, o Largo de São Francisco e a Praça da Sé. Junto aos desenhos, estão expostos em painéis poemas de Augusto e Haroldo de Campos, Glauco Mattoso, Alice Ruiz, Horácio Costa e Frederico Barbosa (a curadoria poética ficou aos meus cuidados). A exposição teve o apoio da Trends Engenharia e Tecnologia, que também patrocinou um belo livro com os desenhos de Teresa Saraiva. A exposição, que faz parte das comemorações dos 450 anos da cidade, pode ser visitada, em horário comercial, na Casa das Rosas, situada na Avenida Paulista, n. 37.

enviada por Claudio Daniel



22/12/2004 08:41

PÉRSIA

E NÃO TER mais fim.
Noite é espelho
de teu ventre,
bebe dessa fonte,
cessa toda água;
dança outra música,
nem há cordas
ou sopros, então
rasga tua roupa,
nem há trapos;
chora, não há mais
lágrimas. Fogo, arde
o que me queima;
terra, engole-me
num trago. Só canto
e danço os noventa
e nove nomes
de Allah, e rodopio.
Para que fermente
o vinho; e enlouqueça
em seios brancos;
e não diga nada; nem
saiba onde ou quando,
só amor de amor. Sei,
eu sou tu; agora,
sou eterno.

(Poema de Claudio Daniel, do livro A Sombra do Leopardo)



enviada por Claudio Daniel



20/12/2004 17:36

ANOTE EM SUA AGENDA

A Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura — já tem um programa de cursos e atividades para 2005. Eu vou dar uma oficina de haicai, com exposição teórica, leitura de textos e exercícios de criação. Sabe onde fica? Na Avenida Paulista, n. 37. Tel. para informações: 3285-6986. As inscrições serão feitas na recepção da Casa, dirigida pelo poeta Frederico Barbosa.



Programação de janeiro/2005


Fernando Pessoa e seus heterônimos

Por Clenir Bellezi de Oliveira. Quartas e sextas, dias 12, 14, 19 e 21 de janeiro, das 17 às 19 horas.

Vagas: 30

Inscrições até 11 de janeiro na recepção da Casa das Rosas, das 10 às 18 horas.

Taxa de matrícula: R$ 5,00.


No transcorrer das aulas, a professora Clenir Bellezi de Oliveira analisará a obra do poeta português nas suas relações com as vanguardas européias. Assim, demonstrará aos alunos como reconhecer estilisticamente cada um dos heterônimos. Após a leitura e interpretação de poemas de cada uma das personalidades poéticas do grande autor português, será feita a leitura e análise de poemas do livro Mensagem, do ortônimo Fernando Pessoa.


Oficina de Haicai

Por Claudio Daniel. Terças e quintas, dias 11, 13, 18 e 20 de janeiro, das 19 às 21 horas.

Vagas: 20

Inscrições até 9 de janeiro na recepção da Casa das Rosas, das 10 às 18 horas.

Taxa de matrícula: R$ 5,00.


O haicai é uma composição poética de três versos, sem rimas nem título, com métrica de 5-7-5 sílabas, que surgiu no Japão medieval. Brevidade, concisão e síntese são algumas das características do haicai. Essa forma poética de extensão mínima contém toda uma filosofia, vivência e visão de mundo e, portanto, não deve ser vista como apenas um gênero poético; é, na verdade, um caminho espiritual. Através das técnicas do haicai, o praticante busca obter a paz interior, a serenidade permanente, a compaixão por todos os seres vivos e a unidade com o universo. Depois de ler e comentar diversos poemas, o leitor será convidado a produzir seus próprios haicais.


Oficina de Criação Poética

Por Frederico Barbosa. Aos sábados, dias 8, 15, 22 e 29 de janeiro, das 16 às 18 horas.

Vagas: 20

Inscrições até 7 de janeiro na recepção da Casa das Rosas, das 10 às 18 horas.

Taxa de matrícula: R$ 5,00.


A Oficina de Criação Poética, ministrada pelo poeta Frederico Barbosa, tem como objetivo possibilitar aos participantes que, através da prática de exercícios lúdicos, se iniciem ou se aperfeiçoem na prática da poesia, partindo do conceito de Jakobson, de que a função poética consiste em "imagens, sonoridade e ritmo".


TODOS OS NOMES - Oficina de Poesia para Crianças

Por Gabriel Pedrosa, Ana C. Carmona e Carolina Leonelli. De terça a sexta, dias 18, 19, 20 e 21 de janeiro, das 14 às 16 horas.

Para crianças alfabetizadas de 7 a 10 anos.

Vagas: 15

Inscrições até 15 de janeiro na recepção da Casa das Rosas, das 10 às 18 horas.

Taxa de matrícula: R$ 5,00.

Traga seu filho(a) para aprender a escrever poesia se divertindo! Começando com brincadeiras com os próprios nomes das crianças, os professores deste curso, jovens estudantes de arquitetura, vão mostrando aos alunos como ter prazer em jogar com as palavras. Assim, as crianças desenvolvem a sensibilidade poética e visual. O resultado é um grande aprimoramento na utilização da linguagem, o que lhes será útil para sempre, pois em muito contribui para sua formação como leitores e produtores de todo o tipo de texto..


HISTÓRIAS NO CASARÃO

Contação de histórias. Todo Sábado, às 11 horas, e aos domingos, às 16 horas.


POESIA SOBREMESA
(Cursos no horário do almoço)


Atividade que acontecerá ao longo do mês, das 12h20 às 12h50, com palestras sobre nomes fundamentais da poesia brasileira, como Gregório de Matos, Cruz e Sousa, Oswald de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Augusto de Campos e Paulo Leminski, entre outros.

Vagas: 40

Sem inscrição.

Sem taxa de matrícula.

Professores: Clenir Bellezi de Oliveira e Frederico Barbosa


Em meia hora de aula, durante o seu almoço, o participante dessas palestras vai tomar conhecimento da obra de quinze grandes poetas da literatura brasileira. São aulas curtas e vibrantes, capazes de despertar o interesse do leitor pelas obras.


enviada por Claudio Daniel



20/12/2004 08:45

EGITO

SOMBRA, nome
do que cala,
voz de papiro.
Esta é outra areia;
essa, não aquela
estrela. Estou nu
da face ao torso,
e danço outra vez
sobre os caninos.
Hora de dizer
a flor e o grito,
o que nasce em mim
é tua carne escura.
Egito, vem
de teu umbigo
ao meu segredo.



ÍNDIA

SÓ A LOUCURA.
Vem, do púbis
às omoplatas,
canta o antigo
sol, sua face
de flama animal
raiando desejosa.
Flor de sândalo,
diz ao tempo:
agora é sempre,
fecha tua asa,
expira em fumo
e cobre. Vêm,
Lakshmi-Naráyana,
flagelar o medo,
fustigar a sílaba
muda, para o
tempo de cristal.

(Poemas de Claudio Daniel, do livro A Sombra do Leopardo, Azougue Editorial, 2001)

enviada por Claudio Daniel



19/12/2004 15:54

NOSSO TEMPO

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme

(Fragmento do poema Nosso Tempo, de Carlos Drummond de Andrade.)


enviada por Claudio Daniel



17/12/2004 13:49

POESIA NO CIBERESPAÇO


Duas novas revistas literárias estão circulando na Internet. A Errática (http://www.erratica.com.br/?id_obra=24), editada por André Vallias e Eucanaã Ferraz, traz poemas do autor catalão Joan Ferraté, traduzidos por Ronald Polito, um texto de Gilberto Mendes sobre a composição musical Sol de Maiakovski e o meu poema Fiore, numa bela apresentação visual, entre outras coisas. No index da revista, há também colaborações de autores como Augusto e Haroldo de Campos, Arnaldo Antunes, Age de Carvalho e Lica Cecato. Outra revista muito interessante é a Mnemozine (http://capitu.uol.com.br/mnemozine/), editada por Marcelo Tápia e Edson Cruz, que traz um dossiê dedicado a Paulo Leminski, poemas da mexicana Coral Bracho, traduzidos por Josely Vianna Baptista, poemas de Glauco Mattoso, Micheliny Verunschk e meus, entre outros finos e raros acepipes. Ah, sim, essa revista está hospedada no site Capitu, também editado pelo Edson Cruz, responsável pelo jornalismo literário mais rápido e certeiro do Oeste. Pois é. A poesia foi expulsa dos jornais, mas encontrou um lugar de refúgio no ciberespaço, com qualidade e inovação.

enviada por Claudio Daniel



16/12/2004 09:03

O SORRISO DO LEONARDO

Dissecar cadáveres
para buscar
a perfeita anatomia.
Libertar pássaros
nos mercados
da Itália renascentista.
Beleza clara
cabelos e barba
emaranhados
luz em desalinho.
Toga cor-de-rosa
levita na pele
suntuosa de gênio
- inocência serena –
Leonardo, in carbón,
copiando a própria beleza,
em sorrisos negados.
Sorriso de Leonardo
inauguraria um novo sol,
aplacaria o brilho do astro
- seu sorriso imaginado
seus quadros incendiados –
nos conduzem enquanto
vamos dissecando o verbo
com fúria encantada
Desejo leonardino
de libertar o poema
e revelar a musculatura
exata de cada palavra.

(Do livro O sorriso de Leonardo, de Bárbara Lia, publicado pela Kafka – Edições Baratas, de Curitiba. Tem belos poemas nesse livro.)


CHINA

NUNCA, olho-
do-mistério,
cauda de pavão.
Larva, nem crisálida;
onde pousa, branca,
em que pétala,
asas em qual flor,
abelha, se o aroma?
O que retine ao sol,
vibra — folha de
peônia —, dedo não
é lua, nem há pó
ou espelho; Cathay,
tudo é vazio, mas
olhe, tanta beleza
e sopra o vento
de outono.

(Poema de Claudio Daniel, do livro A Sombra do Leopardo)

enviada por Claudio Daniel



15/12/2004 08:33


DOIS POEMAS


setembro

do lado de fora, escreve
sobre as prisões que trazia
por dentro

os muros
desmoronam

no calendário
das horas

exilado

na outra dimensão
do tempo.


calçada

pequeno, o
frágil
corpo
soluça

vermelha
a flor
entre
os dedos

(Do livro inédito Distância, de Virna Teixeira)

enviada por Claudio Daniel






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