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29/12/2004 08:26

SEBASTIÃO NUNES FALA DO ROMANCEIRO DE DONA VIRGO

Leiam a resenha que o mamaluco genial Sebastião Nunes publicou na edição de 23 de dezembro do jornal O Tempo, de Belo Horizonte... depois dessa matéria e daquela do Nelson de Oliveira, no Jornal do Brasil (ver mais abaixo, nesta página), só falta agora sair no The New York Times... valeu, Tião!


AUTOR EXPLORA OS LIMITES DA LINGUAGEM

A literatura de ficção do século 20 pode ser dividida, grosso modo, em dois grandes grupos de escritores: os contadores de história e os pesquisadores de linguagem. Claro que está longe de mim tentar estabelecer blocos monolíticos de autores de uma ou outra tendência. Temos dezenas de bons e ótimos prosadores transitando com a maior desenvoltura de um lado para o outro, aos saltos e cambalhotas.

Talvez os maiores exemplos desses grupos hipotéticos sejam, de um lado, James Joyce e, do outro, Marcel Proust, Thomas Mann ou ainda Franz Kafka. Já nos exemplos fica clara a superioridade numérica dos contadores de história sobre os pesquisadores de linguagem.

Também no Brasil a tendência joyceana sempre esteve em minoria, mesmo porque num país de poucos leitores há o esforço natural para atrai-los através de narrativas lineares e de mais fácil assimilação.

Não foi, contudo, o que aconteceu na virada de século. Incrivelmente, há uma crescente efervescência de autores voltados para a construção (ou para a desconstrução) da linguagem – e o mais recente deles, e dos mais criativos, originais e instigantes, é Claudio Daniel, com seu “Romanceiro de Dona Virgo”.

Poeta com três ótimos livros publicados, Claudio partiu para uma prosa radical, em que – paradoxalmente – usa como referência e suporte alguns dos principais clássicos da língua, tanto na biografia como na obra. De fato, dos seis textos que compõem o livro, quatro se estruturam em torno de Camões, Gregório de Matos, Cláudio Manuel da Costa e Cruz e Souza. Um outro toma como mote o romance entre George Sand e Chopin, enquanto o último retorna à época dos trovadores, para entremear à intrincada narrativa poemas em português arcaico, quando a língua se consolidava.

Nesse nível de construção, em que a prosa ficcional é pretexto para a exploração ao máximo do potencial da língua e das estruturas narrativas, não se pode esquecer os que o antecederam entre nós, e cujos nomes só o valorizam, especialmente Guimarães Rosa, Haroldo de Campos e Paulo Leminski (via “Catatau”). É uma vertente riquíssima e da maior importância em nossa literatura.

Ao lado de textos que se propõem mais narrativos, como o que conta uma hipotética aventura de Camões em Macau, no capítulo do mesmo título, o leitor vai encontrar textos de invenção radicalíssima, como “Gavita, Gavita”, em que Daniel mergulha na própria linguagem da loucura, numa construção densa e estranha, “entrecortada de pausas, silêncios e claridades súbitas”, com escreveu no posfácio Maria Esther Maciel. E também de textos em que, como destacou Sérgio Sant’Anna na orelha, “um jovem guerrilheiro, vestido de mulher, se refugia num mosteiro beneditino e vê Deus, e Ele é azul”, numa história que, apropriando-se de trechos de Gregório de Matos e do Padre Antônio Vieira, ecoa os momentos mais violentos da ditadura militar brasileira, séculos depois.

O “Romanceiro de Dona Virgo” é um livro múltiplo e complexo. Desses que exigem tempo, argúcia e experiência na leitura da melhor literatura, e agora não apenas da ocidental, porque o romanceiro de Claudio Daniel nos remete a todos os tempos e a todos os povos, com sua multiplicidade de culturas e costumes, como se neste livro se reedificasse, mais uma vez, a Torre de Babel, em toda a sua extraordinária multiplicidade de linguagens.


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AUSTRÁLIA

Para Carlos Ávila

VIAGEM ao branco
da pedra. Ver
— pelo avesso
da pupila —
uma face
no sulco
da terra,
um deus também
é o vento.

Água,
serpente
e pétala,
cada estrela,
o sangue
do jaguar:
tudo são
vestígios
da encantação.

(Poema de Claudio Daniel, do livro A Sombra do Leopardo)

enviada por Claudio Daniel






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